sábado, 19 de dezembro de 2009

The End Of The Line.

Eu sou muito nova para falar qualquer coisa sensata sobre a vida ou talvez a vida seja complexa demais, a ponto de independer a idade que você tenha ou quantas coisas você viveu você nunca vai conseguir dizer algo sensato sobre ela.

Mas uma coisa é certa: Toda vida, por mais doce e bondosa que seja, chega ao fim. Por exemplo, o Senhor A.

O Senhor A., em seus quase 80 anos, é uma pessoa muito conhecida e querida por aqueles que passam pelos mesmos lugares que ele. É conhecido pela sua capacidade enorme de "fazer o bem sem olhar a quem". Aquele tipo de pessoa que faz tudo o que está a seu alcance para ajudar até alguém que ele não conheça, só por ter escutado que a tal pessoa precisava. Ele não era santo, claro, era muito teimoso (aquariano) e, frequentemente, inflexível.
O Senhor A., há não muito anos atrás, desenvolveu um carinho e uma ligação especial com sua neta W. Dizia-lhe coisas que todas as pessoas precisam ouvir, mas esquecemos de dizê-las por serem tão mínimas em meio a toda confusão do nosso dia-a-dia. Fez promessa (Senhor A. é extremamente católico) pela saúde de seu neto P.A., que nasceu com síndrome de down em uma família de pessoas saudáveis. E mais uma porção de coisas pequenas com enorme valor Senhor A. fez.
Senhor A. também era conhecido por sua saúde e sua força, raramente reclamava de dores, cansaço e etc. Há poucos anos atrás chegou a fazer uma cirurgia nas veias que alimentam o coração, se recuperou logo. Não demorou muito para ele ser visto fazendo as tarefas mais cansativas (pois sua mulher, Dona D., já não aguentava mais). Nunca havia vomitado. Tomava alguns remédios sim, mas nada que preocupasse demais.
Senhor A. cumpria suas obrigações, esperava pelo melhor de sua mulher que não se encontrava em bom estado, visitava pessoas doentes para dar-lhes apoio moral, organizava as excursões da igreja e todas as suas outras atividades de sempre quando passou a sentir dores no estômago. Meses depois foi diagnosticada a causa de suas dores: câncer. Não tente entender como uma pessoa que nunca sequer vomitou tem células defeituosas no estômago, eu também não entendi. O fato é que sua situação já estava crítica, tão crítica que não se podia operar.
Daí começou o desespero. Amigos, parentes distantes, conhecidos... Todos iam visitá-lo, dar palavras de esperança, desejar melhora, independente do quanto tivessem que se esforçar para isso, todos deixando bem clara aquela história de que "a gente colhe o que planta". Senhor A. plantou amor e dedicação durante toda a sua vida (ou pelo menos a pequena parte que eu tive oportunidade de ver), colheu carinho, admiração e mais amor.
Chegou a dar esperança para sua família com sua força, sua vontade de viver. Reagiu bem aos tratamentos, seus outros órgãos permaneciam em bom estado, não estava anêmico ou desidratado. Uma vez foi necessário correr com ele para o hospital porque não se sentia bem, mas os médicos disseram que era daquele jeito mesmo e que as corridas ao hospital seriam uma constante em sua vida, até que tudo se resolvesse. É claro que os médicos estavam certos.
Mas, em uma dessas corridas constantes ao hospital, o médico pediu à família que ficasse de olho no Senhor A. e que se determinados sintomas aparecessem era para levá-lo imediatamente para o hospital. E essas coisas aconteceram.
Essa história toda de seu câncer aconteceu nos últimos cinco meses. Senhor A. não consegue mais andar sozinho, está com o corpo todo inchado e mal tem forças para falar. Diz que vê sua neta W. pela casa mesmo quando ela não está lá e dá um sorriso mais largo quando a vê, chegou a sonhar que lhe dava a bênção e acordou chorando. O que aconteceu é que o câncer atingiu as paredes intestinais, os rins pararam de funcionar direito e sabe-se bem o que acontece quando os rins deixam de funcionar direito em casos como esse.
Senhor A. está internado, nada mais pode ser feito por ele. Sua neta W. espera que ele desencarne logo, para que ele pare de sofrer.

Com toda essa história, paro de me culpar por não acreditar no amor durante a maior parte deste ano porque eu estava vendo o quadro certo, pelo ângulo errado. O amor existe sim, ele só não é o suficiente.

Se amor fosse suficiente para qualquer coisa da vida, o Senhor A. jamais teria tido um problema na vida, nem uma mísera dor de cabeça ou unha encravada.

O amor é o maior dos sentimentos e a vida exigem mais que isso. A vida exige cuidado, confiança, sabedoria, esforços... A vida exige um pacote que eu duvido que alguém o possua completo.

"A vida é cruel", acaba com todos nós independentemente de quem fomos/somos. E quando ela acaba, ainda nos contentamos com a desculpa de que merecíamos descanso, desculpa que não é errada. Errado é quem fica vivo, chorando, sentindo saudade, questionando.



Ao patriarca da família Francisco, Antônio.
com amor, Neta W.