terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Reminiscências. V

Quando eu tinha uns quatro ou cinco anos de idade, ganhei um kit do Boto, da Boticário. Aquele kit que toda menina da minha idade teve um dia, que vinha com um shampoo cujo o frasco era um boto rosa (aliás, frasco em forma de bichinhos estavam em alta naquela época. Hoje em dia não vejo nenhum), o perfume, cuja tampa era o mesmo boto e blablabla.

Meus amigos costumavam dar presentinhos para a professora da creche e elas os abraçavam de uma forma tão carinhosa, tratava-os como queridinhos e ficava demasiadamente feliz, pelo menos era o que eu via e, uau, eu queria ser tratada daquela forma. Coloquei na minha cabeça que devia dar um presente a minha professora, mas... o quê? Coincidência ou não, ouvi a professora conversando com uma de suas queridinhas o quanto o boto do boticário era bonito.

Cheguei em casa, virei ao meu pai e, com toda a minha inocência de criança de quatro anos, disse:
- Quando meu shampoo de botinho acabar, eu vou dar o boto para a professora.
- Mas você não pode dar algo que já acabou para alguém de presente - respondeu meu pai, meio divertido, meio perdido.
- Então eu dou amanhã mesmo, ainda tem um pouco! - respondi rápido, malandrinha que era.
- Mas está usado. Tem que dar algo novo. - ele respondeu, agora com aquele ar de quem ensina.
- Por quê? - perguntei confusa.
- Para que tenha alguma utilidade para a pessoa. Quando ela ver que é novo, verá que você sente algo maior.
Okay, hoje eu sei o que meu pai quis dizer com aquilo, sei que ele expressou de forma materialista para que me fizesse refletir sobre aquilo naquela época. Sei bem que presentes são dados com o coração, você olha e pensa o quanto aquilo seria bacana para a outra pessoa. Mas naquela época me parecia impossível o que meu pai dizia, uma loucura sem pé ou cabeça. Por quê eu daria um presente muito legal e novinho para alguém, ao invés de ficar o objeto que comprei? Afinal, um presente me parecia muito melhor do que ser a queridinha de uma professora que, dentro de meses, num daria mais 'aula' para mim? Bobeira.

Por fim, meus pais compraram um vaso de violetas para que eu desse a minha professora achando que eu tinha a melhor das intenções. Eu me contentei em tentar comprá-la com aquilo, uma vez que eu não estava nem aí para flores. Entreguei a ela, ela me sorriu, agradeceu e nada mudou. Nada de ser uma queridinha, nada de nada. Eu passei a tarde descrente, como podia? Eu dei um presente a ela e ela não me tinha como sua queridinha. Percebi naquele momento (cedo demais, ainda bem) que não adianta nada presentear alguém esperando algo em troca, de má vontade... pessoas não são 'compráveis', tem que cativar, tem que senti-las.