sexta-feira, 3 de julho de 2009

Don't wanna grow up

Eu raramente paro para observar meu rosto no espelho logo pela manhã, mas nesse dia acordei vaidosa e decidi passar batom. Maquiagem é como uma obra de arte: você deve pintar parte por parte, quando acabamos precisamos analisar bem o resultado final e limpar os borrões. Levantei os olhos dos lábios para que pudesse ver todo o meu rosto e estranhei o que vi. Não estava presente a garotinha do rosto fino. O reflexo no espelho tinha o rosto mais quadrado, como o de uma... Mulher! O sono deu espaço ao susto e ao medo. A "mulher" no espelho não tinha os olhos inocentes e brilhantes, o posicionamento de suas sobrancelhas indicava preocupação e seus olhos se mostravam cansados. Aquela moça tinha, agora, uma vida inteira para planejar e viver, aquela moça tornava-se, naquele momento, a única responsável por seus atos, a única atriz de sua vida.
Num impulso, levei as mãos às bochechas e as pressionei, como se isso fosse tornar meu rosto fino e infantil novamente, mal pude conter o riso sem humor: passei a infância brincando de ser adulta e agora me via tentando correr disto. Despertei de tais pensamentos e forcei um sorriso para meu próprio reflexo, tentei me dizer que tudo ficaria bem.
Do outro lado da sala de estar, meu pai me observava paralisado, com certo pudor, como se houvesse presenciado uma cena íntima demais.
- Vamos? - perguntou ele.
Fiz que sim com a cabeça, sem a certeza de que poderia falar, com medo de que minha voz também tivesse mudado durante o sono. A criança por dentro de mim, chorando, pedia para que eu jamais a deixasse para trás.

"De repente a gente vê que perdeu ou está perdendo alguma coisa morna e ingênua que vai ficando no caminho..."