Foi bem fácil até.
Foi fácil manter as bases firmes ao receber a notícia. Foi fácil porque o cérebro cria mil caminhos diferentes para lhe enganar até que você possa realmente acreditar naquelas duas palavras singelas e frias: Está morto.
Foi fácil vê-lo deitado naquela mesa de ferro, mesmo quando o sangue começou a escorrer por suas orelhas e narinas. Foi fácil porque, embora o semblante estivesse calmo, sua cor e seus traços mostravam escancaradamente seu sofrimento nos últimos oito meses.
Foi fácil vê-lo arrumado e maquiado no caixão (embora não tão fácil quanto vê-lo na mesa de ferro, porque aquela maquiagem te deixou com um ar tão saudável que parecia que a qualquer momento o senhor levantaria dali). Foi fácil porque ele parecia preparado o suficiente para ultrapassar as fronteiras do mundo material com o mundo espiritual.
Foi fácil ver o caixão sendo fechado e lacrado. Foi fácil porque aquela dor jamais virá à tona outra vez.
Foi fácil ver o caixão sendo coberto por terra. Foi fácil porque, finalmente, todo o sofrimento, o cansaço e a dor foram embora.
Difícil mesmo foram os sons e cheiros.
Foi difícil ouvir o barulho da máquina de sucção retirar todo o líquido do corpo inchado enquanto o cheiro podre subia e logo em seguida era substituído pelo cheiro formol. Difícil porque é nesse momento que o cérebro para de nos enganar e as esperanças de um último suspiro de vida se apagam.
Foi difícil ouvir os choros, os soluços e os narizes escorrendo enquanto eu tentava me recolher em meu silêncio. Foi difícil porque fazer alguém chorar ia contra tudo o que eu o via fazendo diariamente.
Foi difícil sentir o cheiro enjoativo das flores todas misturadas. Foi difícil porque 'enjoativo' é um adjetivo que jamais usarão pra falar dele.
Foi difícil ouvir as histórias que contavam sobre ele em voz baixa. Foi difícil porque a gente percebe que por mais que tenhamos sido o melhor que pudemos com o senhor e tenhamos aproveitado o máximo que tínhamos, o nosso melhor e o nosso máximo não foi 'tudo'.
Foi difícil ouvir a pá se encontrando com a terra. Foi difícil porque, a partir dali, não tem mais jeito de ver seu rosto outra vez.
Foram confortável os abraços, as palavras de carinho e os sentimentos recebidos.
Foram bonitas as honras que deram, a quantidade de amigos que vieram, as homenagens que prestaram.
Foi tudo muito intenso, muito forte, como cortes em carne viva. E, ao mesmo tempo, tão surreal... Parece que ainda vou entrar em sua casa, abraçar a vó, pedir a bênção e perguntar: "O vô tá no quarto? Tá dormindo?".
Parece que, toda vez que eu for entrar no quarto, caminharei até o lado esquerdo da cama, darei um beijo em sua testa e receberei o seu sorriso de volta.
É como se tivesse um buraco enorme em minha vida, mas eu não o vejo.
"A morte é apenas uma travessia do mundo, tal como os amigos que atravessam o mar e permanecem vivos uns nos outros. Porque sentem necessidade de estar presentes,para amar e viver o que é onipresente. Nesse espelho divino vêem-se face a face; e sua conversa é livre e pura. Este é o consolo dos amigos e embora se diga que morrem,sua amizade e convívio estão,no melhor sentido,sempre presentes,porque são imortais."
Antônio Francisco
(24/01/1933 - 08/03/2010)
(24/01/1933 - 08/03/2010)