Eu devia ter uns nove anos.
Vinha guardando minha mesada durante meses até que um belo dia peguei aquele dinheiro e fui à loja de brinquedos do shopping com meu irmão. Morávamos no interior de Minas Gerais o que, em nossas mentes paulistanas, significa que era seguro o suficiente para duas crianças irem ao shopping sozinhas.
Meu irmão, determinado que é, escolheu logo o que queria. Enquanto eu, eterna indecisa, passei minutos e minutos, talvez até uma hora, nas prateleiras de Barbie's e Suzi's sem saber qual levar. A escolha não foi fácil, nunca é fácil pra mim escolher algo... Mas escolhi uma Suzi loira, de calça roxa e mini blusa rosa, acompanhada de móveis infláveis e mais um monte de coisinhas... coisa que só meninas vem graça. É claro que a boneca era cara e eu gastei todo o meu dinheiro nela.
Quando não aguentávamos mais andar no shopping nem a vontade louca de brincar com nossos novos brinquedos, ligamos para o pai nos buscar.
Não lembro direito como foi, mas quando contei que gastei meu dinheiro todo numa boneca, meu pai me deu uma espécie de bronca dizendo que achava um absurdo eu ter gastado tanto dinheiro com algo que eu já passei da idade de brincar. Meu irmão disse que achava que meu pai estava errado, que falando assim ele poderia estar a colocar em minha cabeça algo em que eu não queria acreditar.
Não importou muito o que o Ícaro disse em minha defesa porque daquele dia em diante, por mais que eu gostasse de brincar com minhas bonecas, eu sempre sentia uma certa vergonha quando o fazia. Pouco tempo depois minha prima, dois anos mais velha que eu, foi morar com a gente... aí vieram minhas tardes no club com garotas mais velhas que eu, olhando garotinhos mais velhos que todas nós e eu nunca mais brinquei daquelas brincadeiras bobinhas de criança (até os 17 anos, quando passei a brincar de brincar de crianças com meus amigos que talvez tenham deixado de brincar tão cedo quanto eu).
Mas, naquele dia, no carro com a minha nova boneca tudo o que eu pude foi me sentir decepcionada com a minha própria escolha porque ela não era boa o suficiente pro meu pai dizer: "Que bonita!"