Quarta-feira, oito horas da manhã.
Ele entrou na estação V.M. (as pessoas mais incríveis sempre são da V.M.!). Tinha os cabelos curtos um pouco acima do ombro jogados para trás, a barba contornando o rosto, a pele claro e os olhos castanhos na mesma cor que o cabelo. Não era alto, devia ter, no máximo, 1,75 de altura. Usava um terno risca de giz preto, camisa e gravata vermelhas e, para mim, isso significa que ele sabe se vestir. Carregava uma mala de viagem na altura de sua cintura e uma mochila.Eu usava um jeans nem claro nem escuro, uma camisa branca com babados vitorianos (é, eu sei... mas eu gosto) e um casaco pintadinho, meu amado sapato boneca preto nos pés e a bolsa vermelha da minha mãe, levemente furtada do guarda-roupas dela, no ombro esquerdo.
Ele era belo e, sabe, eu também não sou de todo o mal. Não fizemos rodeios, olhávamos diretamente nos olhos um do outro. Mesmo com duas pessoas de distancia entre nós, esticávamos o pescoço, inclinávamos a cabeça. Pensei em lhe sorrir, mas a ideia parecia idiota e fazia-me virar o rosto e rir da cena que meu cérebro simulava e... narrando assim pareço até um pouco charmosa.
Em determinado momento ele tirou o celular do bolso interno do terno (!), mexeu por uns instantes e então o guardou de volta. Meu celular vibrou dentro da bolsa e é óbvio que eu fui atrás do aparelho. Ok, mulher que é mulher sabe a jornada que é encontrar o celular dentro da bolsa. Peguei o celular e havia uma solicitação de transferencia de foto feita por 'Exu' (nome similar, fictício e 'carinhoso') via bluetooth (aê tecnologia), olhei para o meu alvo com o canto dos olhos e ele me olhava de maneira mais intensa, aceitei o arquivo e quando fui conferir a maldita mensagem me aparece: "arquivo muito grande para ser aplicado" (ou alguma coisa desse tipo). Quase pude sentir meu cérebro mandando impulsos de curiosidade para o resto do corpo. Olhei para os olhos dele e guardei o celular no bolso dessa vez.
Ele continuou a olhar para mim, franzia os olhos vez ou outra. Eu continuei a olhar para ele, minha boca se abria um pouco atrás de palavras e então se fechava outra vez, fiz isso três vezes até que me senti idiota outra vez e virei o rosto para rir de mim. Nessa virada de rosto percebi que um 'garoto' na outra porta do vagão olhava para mim com uma tentativa de olhar malvado sexy (parece que era meu dia de sedução), parei de sorrir e então voltei para o meu alvo. Ele estava mais uma vez mexendo no celular e mais uma vez o guardou e me olhou direto nos olhos.
O metroviário finalmente anunciou a estação B.-M., a brincadeira acabava ali. Pedi licença para as pessoas que se encontravam entre meu alvo (que estava perto da porta pela qual eu tinha de descer) e eu. Ficamos alguns segundos um de frente para o outro, olhos nos olhos. Gosto desse contato ocular (?). Percebi seu rosto se virando para continuar me olhando com a minha visão periférica. Desci na plataforma da estação e havia mais uma solicitação de transferencia via bluetooth do 'Exu', mas eu não pude aceitar pois o metrô já havia saído da estação e a distância tornara-se longa demais.
Acho que fiquei alguns segundos parada na plataforma até que meu foco voltou-se para o verdadeiro motivo d'eu estar ali, a entrevista.
O tempo gasto na empresa foi, mais ou menos, uma hora. Uma hora de (minha) análise local (que por sinal é muito bacana), curiosidade com o arquivo recebido do 'Exu' no metrô e a entrevista. Olha, nessas horas eu agradeço muito a minha capacidade de prestar atenção em várias coisas ao mesmo tempo e na velocidade do meu raciocínio. Para não me perder demais na curiosidade, repeti mentalmente que se ele fosse esperto ia procurar o nome do meu bluetooth no orkut e iria me encontrar, simples!
Quando a entrevista acabou, me despedida da moça do RH, saí da empresa e então meu foco virou: chegar em casa o mais rápido possível e matar a curiosidade.
Entrei em casa sem nem dar 'oi' para os pedreiros no meio da sala, corri para o quarto, liguei o computador, procurei o cabo do celular e o pluguei no computador. Foi bem difícil encontrar o tal arquivo porque, assim como minha cabeça, meu celular é uma floresta habitada por milhares de bobagens selvagens e imprudentes, mas encontrei e quando finalmente encontrei a foto... QUE DECEPÇÃO!
A foto era um de 'garoto' com luzes loiras horríveis no cabelo, regata vermelha, bombadinho, umas tatuagens escrotíssimas no braço e uma pose de 'mamãe me ensinou a ser gostoso'. Meu corpo virou uma máquina surpreendente: meu cérebro ria, minhas mãos deletavam a foto do celular e meus olhos faziam força para não acreditar nas imagens que haviam captado. Era o 'garoto' da tentativa de olhar malvado sexy da outra porta do vagão!
Senti uma leve pontada de ódio por ser tão ansiosa e ter ficado curiosa todo aquele tempo a toa e todo o meu foco virou um desejo louco de que o tal 'Exu' fosse burro o bastante para não procurar o nome do meu bluetooth no orkut.