Quando o vi pela primeira vez, foi instantâneo pensar: que garoto gigante. Aquele corpo de, provavelmente, 2 metros não deve ter muito mais do que 70kg. Fiquei olhando, tenho esse defeito, não sei disfarçar que estou analisando. Ele se mexeu um pouco, talvez estivesse desconfortável afinal, eu não tenho uma expressão muito amável. Ao sinal do metrô, as portas se fecharam, ele na plataforma, eu no vagão.
Um dia.
Dois dias.
A porta se abriu e o garoto gigante entrou no vagão. Passos cuidadosos, tímidos, abaixou um pouco a cabeça para passar pela porta, todos olharam para eles com aquela cara de quem viu a falecida Dercy pelada dançando tango com o Clodovil. Então eu me 'toquei'. Claro que ele se sentia excluído, não bastasse seu porte físico, usava roupas pretas e os cabelos quase loiros na altura dos ombros. Ele se sentia tão desconfortável quanto uma garota complexada se sente ao passar por uma construção e perceber que todos os pedreiros olham para seus peitos. Senti uma enorme vontade de confortá-lo (é, eu sinto vontade de confortar desconhecidos), de falar que eu compreendia ele. Olhei-o... usava uma camiseta preta, com um desenho do Homer Simpson imitando o Homem Vitruviano, com uma folha de maconha (ou bem parecida) na genitália. Não pude conter o riso abafado e ele, claro, percebeu porque estava olhando para mim... como não olhar para alguém que lhe remete olhares curiosos? Notei seus ombros se aliviarem, eu não o via como roqueiro-malvado-gigante-satanista (tá, duvido que alguém pensasse isso sobre ele). Abaixei a cabeça e sorri para mim mesma, será que eu, ainda que bem pouquinho, confortei ele?
Imagino que ele seja um desses garotos que te fazem rir o tempo todo, divertido... será que as pessoas podiam enxergar isso, além da aparência dele?
Não importa, desci do vagão cantarolando a música que ouvia no meu MP4, ainda rindo da camiseta do garoto desajustado.