segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Reminiscências. II

Mais uma vez, eu e os quatro anos de idade. Nós morávamos nos fundos da casa de minha avó, meus avós tinham feito uma excursão e, como sempre, levaram só o meu irmão porque eu era 'chata' para comer, meus pais estavam na sala vendo filme e eu estava na cozinha, brincando com a luz apagada.
Tá, não é muito comum uma criança de quatro anos brincar na cozinha, principalmente com a luz apagada, mas aquela cozinha tinha o meu conta preferido: o espacinho entre o armário e a geladeira. Criança adora ficar amontoada, fato, então é claro que eu estava amontada lá com os pinos de boliche de plástico. Organizava os pinos como via nos boliches de verdade, colocava a bolinha na tampa da garrafa, que era sanfonada no fundo, para que apertássemos e o ar fizesse a bolinha 'disparar'... era exatamente o que eu estava fazendo e falava sozinha:
- Agora é a sua vez.... *jogava* Pronto, você *jogava*

Meu pai, tinha ido pegar alguma coisa em nossa casa e estava voltando para a sala, nesse trajeto tem que passar pela cozinha. Ele me viu lá, brincando e rindo e voltou-se para minha mãe:
- O bom da Wendi é que ela se diverte sozinha, toda independente.

Olhei para o meu pai caminhando de costas em direção a sala, abaixei a cabeça e comecei a chorar em silêncio como muitas outras vezes anteriores (e posteriores). Poxa, eu estava falando sozinha só porque queria alguém alí comigo. Eu não era, e continuo não sendo, independente, eu só estava fingindo que podia ficar alí sozinha enquanto meu irmão se divertia na viagem, eu só estava fingindo que estava tudo bem... mas não estava, nunca esteve. Todas as vezes que tinha aquela merda de excursão eu passavao domingo inteiro brincando sozinha dentro de casa, já que o Ícaro e a Gabi sempre iam.


"I can be the one alone"