sábado, 28 de março de 2009

Butterfly cry

Estava dormindo no ônibus. Acordei um ponto antes. Levantei, ainda meio 'bocó' e caminhei em direção a porta, trôpega, e o balanço do ônibus não ajudava, dei sinal, desci. Atravessei a avenida, entrei na rua, cheguei em casa.
Fui recebida pela poodle branca, que latiu até eu me irritar e mandá-la calar a boca. Abri a porta dos fundo para que ela fizesse suas necessidades. Mas ela, ao invés de correr para o outro lado, ficou cheirando o canteiro próximo ao lixo, havia uma garrafa dentro dele.
Chutei o canteiro, na intenção de assustá-la para que ela fosse logo me livrar daquela 'tarefa'.
- Vai fazer xixi, Dolly, eu não tenho o dia inteiro - ordenei, impaciente.

Quando chutei o canteiro, comecei a ouvir algo pequeno se mexendo. Procurei ao meu redor, nada. Olhei para baixo, nada. Para o canteiro... havia algo se debatendo em baixo da garrafa plástica. A princípio, pensei que fosse uma folha, mas quando a sonolência passou, quando eu despertei, é claro que eu pensei o óbvio: uma folha não se mexeria! Me curvei um pouco e notei que era uma borboleta, presa em baixo da garrafa. Primeiro instinto: tirar a garrafa de cima dela. Já estava dobrando os joelhos quando lembrei que ela poderia voar no meu olho, que eu tenho medo de qualquer ser vivo que não me diga palavras claras. Parei. Voltei a postura normal. Ela se debatia desesperada. Chorei.
Uma vez ela tinha sido uma lagarta, se alimentou e procurou um lugar bem seguro para virar um casulo. Se fechou em seu casulo e lutou por dias para se libertar, para virar uma linda borboleta um dia e morrer no dia seguinte. E agora, que ela só tinha um dia, ela estava presa e a única pessoa capaz de ajudá-la não o fez por medo.
Chorei mais. E mais. E mais. E mais. A cada batida de asas dela, eu dava um novo soluço.
Sai correndo, esquecendo a Dolly no quintal, subi as escadas ainda brava. Me joguei na cama e afundei o rosto no travesseiro. Que eu sou uma borboleta, todos me dizem. E então me vi naquela situação... quantas vezes eu fui presa em um canteiro, por uma mera garrafa de plástico e a única pessoa que poderia me ajudar, tinha medo de mim? Quantas vezes mais aquilo aconteceria comigo? Mais soluços.

Aquela cena resumia simbolicamente a minha vida: presa por frágeis celas inquebráveis.

"Let the butterflies cry, let them cry for you..."