domingo, 8 de março de 2009

Reminiscências. VI

16 anos. Férias de Verão. Casa de shows perto de casa. Minha época mais bonita até agora.

Eu, minha amiga fiel, sua irmã e um amigo de infância delas estávamos bebendo e rindo, como todo jovem deveria fazer. Eu estava um pouco doída com um fim de uma 'relação amorosa' e minha amiga brava com seu amor à distância, portanto, era óbvio que aquela seria uma noite de caça. Não sei como achei tantas pessoas 'beijáveis' naquele lugar quase vazio, mas encontrei.
Oh, não pense em mim como uma vadia, ou pense se quiser - eu não me importo com o que as pessoas pensam em geral -, mas eu estava na fase não abandone a putaria, viva nela todo dia e me parecia completamente satisfatório e normal trocar meia-dúzia de palavras com alguém, beijar, sair fora e procurar outra pessoa.
Então avistei alguém de aparência realmente agradável: cabelos castanhos claros anelados até os ombros, olhos verdes (que não são de esmeralda...) e muitas pintinhas no corpo. Não me pergunte como exatamente o encontrei por lá, parte da minha memória se perdeu enquanto eu dormia, assim como toda a minha timidez foi embora junto com o vinho vagabundo da garrafa de plástico... óbvio que sem timidez, era muito fácil encontrar um assunto para puxar conversa e logo mais estar expremida contra a parede com ele. Saí, dei uma volta e, como imãs de pólos opostos, ele sempre me puxava para perto dele... a presença dele era incrível.
Tivemos um bom tempo naquela noite. Conversávamos, ríamos, beijávamos (agradeço as plantas por se manterem caladas e não falarem nossa língua), levávamos broncas do segurança mal-humorado, conversávamos, ríamos...
Estávamos sentados na grama, em frente ao lago, eu estava entre suas pernas, encostada em uma deles e absorvendo tudo que podia de sua imagem quando ele me surpreendeu:
- Eu não consigo olhar para você por muito tempo... - ele falou, com naturalidade.
- Por quê? - perguntei, inocente e divertida.
- Seus olhos... são tão sérios.
Senti meu rosto pegar fogo, ninguém nunca havia algo desse tipo para mim, não em um momento tão íntimo meu, quando estava absorvendo cada traço de sua imagem. Continuei olhando-o, dessa vez perplexa...
- Boo! - ele brincou.
Abaixei a cabeça e ri, de levinho.
- Há, ganhei. Consegui fazer você desviar o olhar primeiro.
Ri com mais força. Tão bobinho, tão meigo, tão singelo, tão sincero, tão natural... era como se nos conhecêssemos há tempos, como se fizéssemos parte de nosso dia-a-dia. Essa sensação fez-me esquecer de trocar qualquer tipo de endereço com ele (telefone, msn, orkut) e me arrependi por meses de ter esquecido disso, de arrumar um modo de manter contato. Procurei feito louca por ele, nunca encontrei.
Então me perguntei, quantas pessoas assim entraram/entrarão em minha vida? Talvez as pessoas mais incríveis da nossa vida sejam essas que conversam durante horas com a gente, tocam o fundo de nossa alma e desaparecem para sempre, como se fosse um enviado de Deus. Estou totalmente satisfeita por não tê-lo visto nunca mais, tenho apenas um momento com ele. Momento único como ele... um momento e um garoto eternizados pela dor passageira de uma adolescente. Quantas histórias podem ser mais bonitas do que essa?

"You touch me in many, many ways..."