segunda-feira, 9 de novembro de 2009

As mentiras que os filhos contam. Pt. I

A gente aprende, logo quando crianças, que mentiras não devem ser ditas, que são imorais, feias; fica gravado em nossa mente que mentira é coisa de pessoas que não são dignas de confiança.

Mas quando a gente cresce e passa ter a nossa vida pessoal, a gente percebe que não é bem assim que a coisa funciona, principalmente quando não se é totalmente independente - quando tem pais que pagam suas contas. Por que você deve alguma satisfação à eles, mas tem todo o direito de manter sua privacidade, certo? E, algumas vezes, os pais quase imploram para que contemos algumas mentiras. Como a clássica situação:


- Mãe, vou sair com Joãozinho.

O comum é você dizer: "Vou pra 'insira-o-nome-do-local-aqui' com a Ná, a Bá, a Li, a Fá, a Bibi, o Di, o Lê, o Maumau... ah, a galera. Talvez a gente vá pra casa de algum dos meninos e dormimos todos lá, vendo um filminho bacana." Sua mãe sabe que quando você se limita à um nome é porque você não quer contar e, ela não é idiota, tem idéia (maior ou menor) do tipo de noite que vocês terão, mas ela deixa por isso mesmo? Não. Ela tem que vir com a pergunta cretina:

- Que Joãozinho?
- É aquele que eu disse que a Jack me apresentou há uns meses atrás...
- Ah sim! E pra onde vocês vão?

Pronto, ela começou a pedir por mentiras.

- Vamos para um bar 24horas... o, é, o... Bar do XXX, na avenida 17.

É claro que você falou o nome do bar mais longe que lhe veio em mente e provavelmente não era a resposta que você tinha planejado caso ela começasse com o interrogatório. Ela já detectou a mentira, mas ela quer mais:

- E quem vai?

A primeira coisa que vem a sua cabeça é falar o nome de todos os amigos de sempre e inventar um pouco mais. Mas então vem o medo, e se alguém que você disse que iria ligar na sua casa? E se ela ligar para casa de alguém (mesmo que ela não tenha esse hábito, você pensa nisso, porque as mães têm a mania de desenvolver novas manias no exato dia que nós mentimos) ? Você opta pelo pior, mas a única coisa que ela não pode checar, o desconhecido:

- Ah, eu não conheço o pessoal que vai, é aniversário de um dos amigos dele e...

Ela não cansa e ainda te interrompe toda alegre:

- Ah, a Jack vai com vocês então?
- Nã-o, a Jack não se dá muito bem com o aniversariante.

Então ela termina a conversa do jeito que ela nunca termina quando você está dizendo a verdade, o que só confirma que ela sabe de tudo:

- Ahhhn, sei. Juízo, hein.

E ela fica em casa mentindo para ela mesma que você está fazendo tudo aquilo que você disse que ia fazer. No dia seguinte ela estará convicta de que você disse a verdade, porque ela mesma colocou isso na cabeça e não porque você é um bom mentiroso.


E ninguém pode dizer que você foi imoral, feio e pouco digno de confiança nesse momento, porque essa foi uma mentira saudável. Se você tivesse sido sincero dizendo "Mãe, vou sair com o Joãozinho, que na verdade é Joãozão hehehe. Lembra dele? Conheci mês passado, então a gente tá pensando em um lugar com bastante privacidade, com certeza vai ser um motel." ela não ia ficar bem, ia ficar em choque e ia te dar toda aquela aula de sexologia que você decorou até de trás para frente.

Então, como já diziam os mais sábios:
"Se a mentira faz bem, amém."



Ps: é claro que esse post tem como base a minha relação com a minha mãe e até mesmo meu pai. sei que nem todo mundo tem a mesma liberdade (alguns tem mais outros menos...) que eu tenho para sair com quem quiser, a hora que quiser ou até mesmo um relacionamento tão aberto com os pais a ponto de dizer que vai sair com um garoto. sei bem que existe milhões de outros motivos para se contar mentiras saudáveis para os pais (talvez eu escreva sobre os outros também, que tal?). e também não sou ingênua e sei que nem todos os filhos contam apenas mentiras saudáveis.