Subiu as escadas com dificuldade, largou a mochila na porta do quarto e se atirou na cama com o rosto afundado nos lençóis. Estava chorando outra vez. Há quanto tempo vem se deixando levar pelas emoções breves e rápidas? Apertou os punhos, soluçou. A garganta, que já estava inflamada, doía ainda mais.
Por que tudo na sua vida estava tão distante? Por que era tudo tão difícil? Amores, profissão, solução, conforto, realização... todos acenando em algum lugar muito distante no horizonte. Perguntava-se se um dia chegaria lá.
Não queria fazer aniversário, não queria ter de fazer faculdade, não queria pensar em trabalho. Não queria, de nenhum jeito, crescer. Queria ser para sempre uma criança, que sempre tem alguém para protegê-la, para pensar nela, para se preocupar. Queria ser a criança que não foi. Mas quanto mais tentava manter-se pequena, mais realizava tarefas 'adultas'.
Hoje em dia é difícil ver jovens assim, querem todos crescer e fazer tudo de uma vez. Talvez ela fizesse o mesmo se não tivesse quase certeza de que um dia teria de deixar todos para trás. É, ela podia se ver dando as costas à todos aqueles que tem como amigos, à própria família. Ela tinha quase certeza de que viveria distante do lugar onde tinha um passado, com alguém que não a viu crescer ou mudar. Ela sabe que não vai hesitar, mas ninguém disse que 'não hesitar' significa facilidade. Sabe que um dia teria de dar adeus a todas as coisas e o fará com os olhos cheios d'água, o futuro matando o passado. Do passado apenas lembranças, fotos e cartas...
E, pensando assim, ria por dentro da própria tolice, do modo irônico como o tempo a fez engolir as próprias palavras. Uma vez disse que não trocaria toda a sua vida pelo amor (ao próximo e o próprio) e agora tinha quase certeza de que um dia o faria, é a única maneira de ser feliz.